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Crônicas

Falsas Colorações

As colorações naturais passam fome. Há torrentes ensurdecedoras que preenchem o topo da ignorância e procriam-se como grãos de areia, uma falsa alvorada estampada nos cabelos, antes castanhos, impregnados na pérfida espontaneidade da luz, que caminha na beira do precipício de mãos dadas com seu oposto – eternamente adorado por hostis merecedores da baixa renda, falsos assinantes de correspondências ocultas. A bondade dos adoradores de tinta reflete nos ombros do vizinho, que provavelmente trata sua indigestão com chá de boldo – causa: excesso de alimentação mental.

Todavia procura-se buscar o auto conhecimento através da falsa coloração. Se não ocorrido, concebe-se ao menos o alívio ilusório, e enquanto que o chão treme, devo admitir que possuo a nível superior um degrau avançado que impedirá o esmagamento na pior das hipóteses. Quando a ilusão adormece, pensamentos compulsivos voltam a tocar trombones perto do tímpano, pedindo a breve compreensão das sinapses conquistadas na infância pelos inconsequentes mascarados, mas logo vem o altruísmo facilmente reconquistado, destruindo qualquer resquícios da mente piedosa, pois uma personagem não revelada tornou-se alvo da mediocridade, e perdeu o valor de unicidade.  A naturalidade contra o ilusório.

Felizmente enganado será o apostador da ilusão, ainda que tardar, não possua mais o que pintar, ora que o próprio organismo expulse de si algo que não lhe pertence – estupenda teoria que explica a importância da boa dieta.


Em processo de gravação!

Girafas de três cabeças, gata parda no cio rodeada de gatos demoníacos, antílopes, rinocerontes e talvez até dinossauros. A trama é concluída num campo extenso rodeado por montanhas (daquelas que lembram a Suíça), mas a ventania e as nuvens cinzentas mantém o clima tenso – cenário propício para uma dor de cabeça daquelas, resultante do ato de ranger os dentes. Noite agoniante seguida de outros sonhos perseguidos por lobos, onde o melhor refúgio se dá nos galhos quebradiços de uma árvore pequena, seca e por sinal, cinzenta.

Não é novidade sonhos cinzentos, já que o cinza predomina. O próprio edredom que me cobre é cinza. O cinza é a união das cores representadas no Yin Yang. Representa a dualidade de tudo o que existe na natureza, o equilíbrio entre altos e baixos, e além do bem e do mal. Transpira muito bem em “What do you want?” e pulsa compulsivamente em “Pride and Tools”.

A natureza ensina sem palavras. Seus ensinamentos evitam a morte precoce, privilégio restrito apenas para os que nascem. A morte é troféu para os que vivem, incognitivamente destinados a renascer no próximo temporal. O renascimento é o auge de todas as criaturas vivas do planeta, extinto em seres humanos. Proporciona o prazer do gozo diário, mais sexual do que o próprio ato de copular.

A longevidade das águias depende do extinto de sobrevivência, correlaciona a bravura da auto destruição com intuito de renascimento. Aos quarenta anos, decidirá pela vida ou pela morte. Heróico o ser que opta destruir seu próprio bico, arranca suas próprias penas com o propósito de renovar-se. Gozará nos próximos trinta anos se assim fizer nos próximos 150 dias, no topo da montanha.

Assim fez Zaratustra, assim fazem as águias, e assim traço meu destino. Para isso se faz necessário resgatar o equilíbrio do ego, a fim de digerir alguns sapos. Encontrar a grandeza dos pequenos atos define a conclusão de um longo percurso, motivo pelo qual eu prezo, e semeio aos próximos – águias destinadas a perderem o bico.

Nos próximos dias estarei no topo da montanha, gravando minhas composições, e editando um material de qualidade, que estará disponivel em HD daqui a 150 dias. E para os bons entendedores, aqui fica a mensagem: a multidão parada  no acostamento está vendo a capivara. Prossiga.

*Aproveito nesta postagem para agradecer de coraçao a grande parceria da loja de instrumentos musicais Dat Som, empresa que está me ajudando muito no meu processo de gravação. Muito obrigado!


Trabalho sério com uma pitada de humor

O relógio marcava dezesseis horas, faltavam ainda cinco minutos para tirar o sagu do fogo. A pia ainda molhada recebia os últimos recipientes, à espera de uma boa enxugada. Logo o pano de prato precisava de um mergulho em água morna e a vassoura pacientemente esperava a hora de entrar em ação. A água para o café borbulhava e a polenta no refratário. O leite fervendo e a expectativa da notícia: azedou… A estas alturas minhas pernas doíam. Também pudera, estavam perambulando desde as seis horas da manhã. Inquietas, saltitavam, buscando um leve alívio, entre ficar num pé só, ora esquerda, ora direita. Através da janela avistei o gramado, todo por cortar… Aquela grama verde, tão alta que já escondia as peraltices do nosso cão filhote, o Banzé.
Durante esta dança desenfreada, pensei no cavalo. Lembro-me da minha infância, quando observava os cavalos no fim do dia levantando uma pata e a outra, e pensei: será que os cavalos saltitavam entre uma pata e outra quando parados pelo cansaço? Fica esta interrogação… Será que algum veterinário já verificou se este episódio é cansaço? Ou será que cavalo não sente dor nas pernas?
Bom, envolta neste pensamento, olhei a grama por cortar e pensei: se pudesse me transformar num cavalo, esqueceria o cansaço e pastaria tranquilamente no meu próprio quintal. E ao fim da tarde estaria com a alimentação em dia, sem excesso de gordura, açúcar, etc., estaria com a grama toda aparada. E eu? Parada… Hora de “desligar o leite”, esquecer a dieta e encher a barriga, retornar pro batente; pois o relógio ponto me espera pontualmente às dezoito horas, e eu disparada, já disfarçada dando risada dos meus “pulinhos”, volto ao trabalho; adormeço o cavalo.

Maria Elivete


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